top of page
Image by Amritanshu Sikdar

“Rompi tratados, traí os ritos. Quebrei a lança, lancei no espaço.”

Este é um artigo que publiquei no Folhetim NoNada (2026), do FCL-BH.

Ele nasceu em um momento do meu percurso em que eu me sentia perdida após enfrentar um luto avassala(dor), no ano de 2021. Muita coisa mudou desde então: tanto a forma como leio esse artigo hoje quanto o meu próprio percurso.

Com o tempo, fui me reconciliando com muito do que escrevi. E talvez esse texto tenha servido justamente pra issso: oferecer um lugar de passagem àquilo que, naquele momento ainda encontrava apenas a forma de um lento gotejar.

Há um momento na formação em que não se trata mais de aprender, mas de perfazer. Não que seja uma de-cisão consciente, dessas que se anunciam com clareza e método. Penso que funciona mais como em uma estação em que você pega um bonde errado e que, dentro do bonde, precisa saber-fazer com o destino equivocado. Descer em seguida e pegar outro, ou ir até o final da linha.

“Rompi tratados, traí os ritos. Quebrei a lança, lancei no espaço.”

Quando escutei esse verso, recordei-me imediatamente do teto que desabara no consultório em que eu fazia um trabalho de análise por seis anos e que fora muito difícil de romper, encerrar, finalizar. As chuvas fortes que banhavam a cidade causaram um furo no teto e ele começou a pingar. A cada sessão, havia um balde dentro do consultório, como se quisesse dar conta das gotas que o inundavam.

O tempo foi passando e o teto foi cedendo ao ponto de desabar: abriu uma cratera. O furo virou um buraco maior...

O teto desabou e um corpo com ele também. O teto seria a representação de algo que só inundava e não esvaziava até que desabou. Não coube no corpo.

O rompimento ocorreu como um segundo ato de nascimento. Romper não foi um ato de recusa, mas uma passagem.

Rompi também com a Escola. Ou talvez tenha sido o contrário: algo em mim já havia se deslocado, e a instituição apenas deixou de fazer borda.

Depois disso, vieram anos de solidão.

Análise, supervisão, atendimentos e estudos ocorriam, mas havia uma espécie de resto que não se movia. Como se uma parte tivesse ficado retida naquele ponto de interrupção, naquele corte que, embora necessário, não se concluía. Segui trabalhando, mas com a sensação de que algo do meu próprio percurso havia ficado oco, sem eco.

Ocorria, por parte da analista, a seguinte sentença: “não se pode fazer trabalho de análise ou supervisão com analistas de outras instituições”. Não dei ouvidos. E mesmo antes de o teto criar furos e desabar, quebrei a lança, lancei no espaço um novo laço.

Iniciei uma nova temporada de supervisão com uma analista do Fórum do Campo Lacaniano. Tempos depois, em uma nova estação, reiniciei uma análise à distância, atravessando estados e sustentando um encontro possível dentro das limitações impostas pelo tempo. Permaneci por três anos.

Talvez saber, ler, estudar e ouvir que somos sós seja diferente de viver no corpo tal experiência. Mais uma vez, a vida convocava a lidar com a solidão do ato, o saber ser ímpar mesmo rodeada de gente.

“O analista, fundamentalmente, está só (“tão só quanto sempre estive em minha relação à causa analítica”), ele tem “autonomia nas suas iniciativas”, não tem Outro que o suporte: ele se autoriza de si mesmo. O princípio desta solidão é a premissa do ato, é o que vai lhe dar autoridade para suportar o abjeto, o que na análise presentifica-se como sendo a extrema solidão de um sujeito, o seu mais próprio desarvoramento.” (Fingermann, 2016, pg. 194)

Depois de tanto tempo vagando, decidi circular.

Circular por Uma Escola não é apenas frequentar seus espaços. É consentir em

se expor à política, às transmissões, às formas de laço.Há medo? Sim.

Medo de reencontrar formas endurecidas, de ver o discurso analítico capturado por lógicas estranhas, de testemunhar a redução da experiência a posições e pertencimentos. Medo, também, de não encontrar lugar.

Mas há algo que insiste.

Circular, para mim, não tem a ver com pertencimento imediato. Ainda que a palavra remeta à repetição, círculo, nesse caso esse círculo rompeu para que eu pudesse circular, passear, como aquele passeio de Freud com o poeta, observando as estações e seu retorno.

Tem mais a ver com uma aposta: a de que ainda é possível sustentar um percurso que não se feche em estações estáticas e dogmáticas; que, se se pega o bonde errado, pode-se descer e pegar outro.

Romper não foi o fim de um caminho.

Foi, talvez, a condição para que uma nova estação pudesse recomeçar.

E circular, agora, é menos sobre encontrar um lugar e mais sobre sustentar um movimento. Não precisa ser engessado. Não é um gozo mortífero, mas um gozo em júbilo.

Às vezes é preciso tempo para diluir as questões viscosas que carregamos como verdade, para que então a gente se dê conta de que a Escola não é esse lugar inalcançável que afasta aqueles que desejam engajar-se. Pelo contrário, ela só existe porque pessoas se dispuseram e se responsabilizaram em fazer avançar a psicanálise.

“A escola de Lacan (…) é uma praça pública, fórum, ágora, que cada um perpassa caminhando, andando e riscando seu caminho próprio.” (Fingermann, 2016, p. 27)

Talvez circular, então, seja consentir com isso: não há lugar pronto, mas caminhos que se fazem ao andar. E, nesse percurso, cada um é convocado a responder

não apenas com seu suposto saber, mas com aquilo que pôde extrair do seu próprio trabalho de análise.Um savoir-faire com o resto.

Porque, afinal, talvez a formação não se dê naquilo que conseguimos manter intacto, mas justamente nos pontos em que algo se rompe, se perde, se desorganiza e nos convoca a inventar outra maneira de seguir.

Não há Outro que assegure o lugar certo, a Escola certa, o modo correto de fazer.

Mudar o verso. Nos “secos ou molhados”.

Desaguando, furando ou gotejando.

Romper tratados e catar o que disso não cessa de cair.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

FINGERMANN, D. A (de)formação do psicanalista: as condições do ato psicanalítico. São Paulo: Editora Escuta, 2016.

ACESSAR O PDF DO FOLHETIM NONADA:

bottom of page