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Supervisão: lugar de trabalho com o insabido



A supervisão ocupa um lugar de decisão na formação do psicanalista. Funciona, a meu ver, como um segundo momento de análise. Não se trata somente de procurar um supervisor-analista para que ofereça respostas para a condução de um tratamento, tampouco uma super-visão elaborada com um punhado de indicações de textos numa espécie de "dever de casa" para o praticante. Seu valor está justamente em propor um espaço onde o caso possa ser recolocado em trabalho, fazendo aparecer não apenas aquilo que se apresenta na fala do analisando, mas também os impasses, as escolhas e os efeitos da posição ocupada pelo analista.

Por isso, penso que talvez realmente não se trate de supervisão, mas de uma "superaudição", como sugeriu Lacan, em 1975, na Conferência da Universidade de Columbia. Ele propôs pensarmos a supervisão na dimensão de uma superaudição.


não sei porque chamaram isso de supervisão. É uma superaudição. Quero dizer que é muito surpreendente que se possa, ao ouvir o que lhes contou um praticante, é surpreendente que, através do que lhes diz, se possa ter uma representação daquele que está em análise.


Cada sujeito estabelece uma relação singular com a linguagem, com seu sintoma e com aquilo que insiste em seu modo de gozar. É por isso que nenhum caso é igual a outro. Da mesma maneira, nenhuma escuta acontece sem a presença do analista. Há sempre alguém ocupando uma função, sustentando uma transferência, realizando intervenções e, inevitavelmente, sendo atravessado pelo encontro clínico.


Quando um analista leva um caso à supervisão, leva muito mais do que a narrativa de um analisando. Leva suas dúvidas, seus impasses, seus silêncios, aquilo que ainda não encontrou lugar em sua escuta e, sobretudo, as perguntas que aquele caso passou a lhe dirigir. Em certa medida, todo caso clínico também se torna um caso do analista.


Suponho que venha daí a possibilidade de pensarmos a supervisão como um segundo momento de análise e, ao mesmo tempo, na dimensão de uma superaudição. O praticante precisa estar advertido de que a escuta é sua principal ferramenta de trabalho. Em sua própria análise, muitas vezes, é preciso ouvir-se.


Na supervisão, o supervisor ocupa um lugar que lhe permite emprestar sua escuta ao caso apresentado. Ao ouvir o relato do praticante, pode recolher não apenas os movimentos do analisando, mas também os efeitos da posição daquele que conduz o tratamento.


É justamente nesse ponto que a supervisão deixa de ser um espaço voltado exclusivamente ao analisando. Engana-se quem pensa assim.

Ela, sobretudo, interroga a posição de quem escuta. Pergunta pelo manejo da transferência, pelos efeitos do desejo do analista e pela direção que vem sendo dada ao tratamento. Não para produzir um modelo ideal de condução clínica, mas para abrir espaço para que novas leituras possam surgir.


Em outras palavras, supervisionar um caso é, inevitavelmente, interrogar a posição do analista.


É por essa razão que supervisão e análise pessoal não podem ser pensadas como experiências intercambiáveis. A supervisão não substitui a análise, assim como a análise não substitui a supervisão. Cada uma responde a uma dimensão distinta da formação do analista.


Jacques-Alain Miller, em Um início na vida, afirma que "não tem o direito de intrometer-se na psicanálise aquele que não adquiriu, por meio de uma análise pessoal, essas noções precisas que somente ela é capaz de liberar". A afirmação não pretende estabelecer uma exigência burocrática para o exercício da clínica, mas recordar um princípio ético: o inconsciente do analista também está implicado em seu ato. A supervisão pode recolocar um caso em trabalho, interrogar a posição do analista e ampliar as possibilidades de leitura, mas não pode fazer aquilo que pertence ao campo da análise de quem ocupa essa função.


E é justamente nesse ponto que a supervisão se distingue de um estudo de casos ou de uma discussão exclusivamente teórica. A teoria oferece materiais indispensáveis, mas não substitui o ato analítico. Entre o conceito e a intervenção existe um intervalo que nenhuma leitura é capaz de preencher. Esse intervalo exige um trabalho constante de per-laboração, no qual o saber adquirido precisa ser atravessado pela experiência da análise e pela responsabilidade implicada em cada decisão clínica.


Não se trata, portanto, de aprender a "ser analista" por meio da supervisão. A função analítica não se transmite como um conjunto de técnicas. Ela se constrói na articulação entre estudo, análise pessoal e supervisão e, eu acrescentaria, de um "mais-ainda": a Escola e o cartel. Pilares que se sustentam mutuamente, sem que um possa ocupar o lugar do outro. Uma supervisão sem o TRABALHO de análise tende a converter-se em busca de receitas, uma teoria sem elaboração clínica corre o risco de transformar a escuta em mera aplicação de conceitos, uma Escola sem produção reduz-se à frequência de chamada de um curso, um cartel sem a surpresa de seus efeitos inesperados torna-se um grupo de estudos.


A supervisão preserva o analista da ilusão de sua completude. Ao invés de confirmar certezas, ela frequentemente produz novas perguntas. Ao invés de oferecer garantias, recoloca em circulação aquilo que permaneceu fixado. Seu trabalho não consiste em fechar um caso, mas em reabri-lo sob novas perspectivas, permitindo que algo da direção do tratamento possa ser novamente pensado e trabalhado.


Porque, em psicanálise, um estilo não é um adorno da prática. É efeito de um percurso. Não nasce da repetição de autores nem da fidelidade a fórmulas, mas daquilo que cada analista pôde recolher do seu próprio trabalho de análise, em sua (de)formação e com o modo singular de operar em sua clínica. É justamente por esse motivo que nenhuma instituição entrega um estilo pronto. Cada analista o constrói na travessia de sua formação.


Nesse sentido, Sônia Leite e Teresinha Costa, em Letras do Sintoma, afirmam que a formação do psicanalista, por ser um trabalho permanentemente renovável, permite a construção de um estilo sustentado na diferença. Ao retomarem a origem latina da palavra stilus, o estilete utilizado para escrever, mostram que o estilo é, simultaneamente, o instrumento que produz o traço e a marca que dele resulta. A supervisão participa desse percurso não como lugar de confirmação, mas como um dos espaços onde esse estilo continua a ser lapidado.


A supervisão, assim como a própria análise, não elimina a solidão inerente ao ato analítico. Antes, oferece um lugar onde essa solidão pode ser trabalhada sem ser encoberta por respostas prontas. É nesse espaço que o analista pode sustentar um trabalho sobre seu desejo, reconhecer os efeitos da transferência e encontrar condições para que seu estilo continue a se construir.


Penso que a supervisão não seja o lugar onde um analista aprende respostas. É, antes, um dos lugares onde ele reorganiza as perguntas que sua clínica insiste em lhe dirigir. Se a análise é uma operação sobre a escuta de si, a supervisão talvez opere sobre a escuta da própria escuta. Um trabalho permanente com aquilo que, em cada caso, permanece insabido.

A supervisão não elimina o insabido. Impede apenas que o analista deixe de escutá-lo.





*O compartilhamento desse artigo é autorizado desde que seja feita a referência à autora principal do mesmo.


Este artigo foi escrito por Daniele Pinheiro, Psicanalista.



LACAN, Jacques (1976) "Lê symptôme (Conferénces et entretiens dans des universités nord-américaines - Columbia University) In : Scilicet. n 6/7. Paris, p. 42-52.


MILLER, J.A. Um início na vida. Subversos, Rio de Janeiro, 2009. p.98


LEITE, S. e COSTA, T. Letras do Sintoma. Corpo Freudiano - Contra Capa, Rio de Janeiro, RJ, 2016. p.9

 
 
 

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